domingo, 15 de maio de 2022

Entrevista com Germano Mathias

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Clique no link para assistir o vídeo: Depoimento de Caio Silveira Ramos

Nasceu em São Paulo,no dia 2 de junho de 1934, no bairro do Pari, na zona leste paulistana. Filho de pai carioca e mãe paulista, mas ambos de descendência portuguesa. Com os avós, prendeu fados e viras na infância. Apesar da vida simples, Germano não era pobre, tinha uma família que lhe oferecia boas condições financeiras. Mesmo assim, desde cedo já buscava uma vida de liberdade pra fazer o que tinha de vontade. Na adolescência, fazia o trajeto para o centro todos os dias, onde ficava sua escola. No caminho costumava passar pela antiga Praça da Sé, onde conheceu o samba que era batucado pelos negros nas latas de graxa, que davam brilho aos sapatos dos fregueses que passavam por ali. Viu de perto também a tiririca ou o samba de pernada em que dois parceiros dançam uma espécie de capoeira que tem por motivo a “derrubada”, ou seja, derrubar o outro no chão. O menino branco fez amizade com os engraxates e começou a frequentar as rodas de samba que existiam na Praça João Mendes, Praça da República e também na Praça Clóvis Bevilácqua. Encantado com as batucadas pela cidade, Germano logo aprendeu a tirar sons batucando nesses instrumentos improvisados, foi convidado a integrar a escola de samba Rosas Negras, juntando-se à ala das frigideiras na bateria, tempos depois mudou para a Lavapés. Ainda jovem, decidiu abandonar tudo para morar sozinho (dizem que foi viver com a Nilzona, uma prostituta mais velha que ele. Com essa mulher ele viveu durante cinco), vivendo na malandragem, frequentando os bares, ruas e gafieiras. Uma espécie de Moreira da Silva paulista, malandro das malocas, de camisa listrada, chapeuzinho enterrado, sapato branco, Naquele tempo, gostava da malandragem sadia, era um bon-vivant.

Em 1951 passou a integrar a Escola de Samba Rosas Negras e, logo depois, transferiu-se para a Escola de Samba Lavapés. Tocando na noite boêmia de São Paulo, despertou a atenção dos amigos pela sua habilidade e por insistência do engraxate e sambista Toniquinho, Germano fez um teste numa rádio. Em 1955, iniciou a sua carreira profissional cantando no programa de calouros na Rádio Tupi paulista "À Procura de Um Astro", quadro do programa "Caravana da Alegria" comandado por J. Silvestre. A partir de então, passou a demonstrar seu estilo sincopado de interpretar, utilizando uma lata de graxa niquelada para marcar o ritmo da música. A apresentação rendeu-lhe um contrato com a Rádio Tupi. Gravou o primeiro disco em 1956, "Germano Mathias, o sambista diferente" no qual incluiu uma composição sua em parceria com Doca (Firmo Jordão), o samba "Minha nega na janela", lançado pela gravadora Polydor. Considerado o seu primeiro sucesso, a composição foi bem aceita na época, apesar que a letra mais tarde chegou a ser considerada racista e por isso o compositor evitava cantá-la em seus shows. Em 1958 gravou um dos seus maiores sucessos "Guarde a sandália dela", com Sereno, que mais tarde receberia versão de Jair Rodrigues e Elis Regina. Em 1967 transferiu-se para a TV Globo de São Paulo, na qual apresentou um programa intitulado "Nosso ritmo é sucesso". Foi Randal Juliano, apresentador da TV Record que gerou a nomeação “o catedrático do samba” em seu programa. Então, Germano passou a se apresentar com o slogan “O catedrático do samba. O rei do sincopado”. Catedrático, refere-se a conhecedor, professor, doutor, bamba. Sincopado, refere-se ao ritmo quebrado da música com a batida gingada, mantendo a percussão como o modo de cantar carregado de um sotaque paulistano.

Germano, em seus anos dourados foi um dos maiores vendedores de discos na década de 50 e 60. Virou estrela e transformou-se em referência do samba paulistano ao lado de Adoniran Barbosa e Geraldo Filme. Infelizmente no final dos anos 60, com o estouro da Bossa Nova e a onda da Jovem Guarda tomando espaço da música brasileira e Germano, teve sua carreira estagnada, seus lançamentos foram cada vez mais esporádicos até que ele saísse um pouco de evidência. Com tantos modismos, era inevitável que contratos e cachês começassem a minguar. Na carreira, conheceu altos e baixos, passando por dificuldades financeiras e tempos de ostracismo, em que nem gravadoras nem promotores de shows lhe facultavam oportunidades. Nem os 16 LPs que ele emplacou nas paradas entre 1956 e 1974 serviam para atenuar a situação. O sambista não fatura centavo de direito autoral, com seus discos que estão fora de catálogo e seus sambas não eram mais ouvidos. Mesmo assim, foi convidado a participar de trilhas sonoras de novelas, a exemplo de "Cambalacho", da TV Globo, onde cantou o samba "Jerônimo", de Eduardo Gudin e Carlos Melo, e também trabalhou como ator, interpretando o malandro "Nivaldo" na novela "Brasileiras e Brasileiros", da TV SBT. Assumido farrista e boêmio, Germano não guardou nada do que ganhou nos bons tempos. Chegou a gastar tudo na orgia, regrada a muitas bebidas e mulheradas. Por muitos anos morou no Palacete dos Mendigos, uma pensão meio barra pesada localizada na esquina da Aurora com a Santa Ifigênia, na famosa Boca do Lixo em São Paulo. Hoje, ele é uma pessoa bastante pacífica, mas durante muito tempo ele teve uma convivência muito forte com a bandidagem local. Essa é uma parte de sua história que ele não gosta de lembrar e comentar em suas entrevistas.

Em 2000, com o lançamento do filme/documentário sobre a história de sua vida - "O Catedrático do Samba" - contribuiu para que a mídia o redescobrisse novamente. Foi um ano de agenda cheia com shows, entrevistas (programas de Jô Soares e Boris Casoy, dentre outros) e muitas homenagens, entre elas um texto publicado pelo jornalista Luis Nassif, no Jornal Folha de São Paulo. Após 28 anos de siêncio sem gravar nada, é lançado em 2002 pelo selo Atração Fonográfica, o CD "Talento de Bamba", com 14 faixas, 12 delas inéditas, assinadas por Elzo Augusto, amigo de longa data. Três anos depois, um outro velho sonho se concretiza e Germano lança Tributo a Caco Velho, todo feito somente com os sambas do gaúcho Matheus Nunes. Em 2008 é publicado a biografia “Sambexplícito - As Vidas Desvairadas de Germano Mathias”, seu autor além de escritor, advogado é muito fã e já teve sua composição cantada e interpretada pelo ídolo. Para publicar este trabalho, Caio Silveira Ramos percorreu inúmeros sebos em busca de discos, compactos, livros e tudo que falasse sobre a carreira do genial artista. Considera o livro uma bela homenagem a uma verdadeira lenda da música brasileira. Na sequência veio “Os Experientes” (2015), uma série de televisão da Rede Globo, dirigido por Fernando Meirelles e com participações de Beatriz Segall, Selma Egrei, Joana Fomm, Juca de Oliveira e dos cantores Wilson das Neves e Germano Mathias, além do jornalista Goulart de Andrade nos papéis principais. A série foi indicada ao Emmy Internacional em 2016, concorrendo na categoria minissérie e filme para a TV. Ainda assim, teve um ano difícil. Germano teve que fazer duas operações na coluna e a necessidade de maior controle de insulina no sangue fez com que ele perdesse alguns quilos e também um pouco de seu jeito irrequieto... sem perder a majestade.

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