terça-feira, 5 de abril de 2022

Lixão de Itaoca

Em janeiro de 2009, estive no município de São Gonçalo, Niterói/RJ, para conhecer um depósito de lixo urbano de toda a cidade. O local existia há mais de 40 anos, e utilizava uma área de 170 mil metros quadrados, onde recebia diariamente algo em torno de 100 mil litros de chorume (líquido poluente, de cor escura e odor nauseante, originado por lixos apodrecidos), em seus arredores viviam uma população de cerca de dois mil habitantes, sendo 700 catadores que trabalhavam diretamente no lixão para garimpar materiais recicláveis, e principalmente alimentos para a sobrevivência de 200 pessoas, que construíram pequenos barracos para viver nas proximidades do trabalho. Chegar até lá, não era tarefa das mais fáceis, a começar pelas ruas de terras todas esburacadas, tornando o acesso de carro bem difícil e cauteloso; muitos moradores não aceitavam a vinda de estranhos nas imediações; o cheiro indefinido de podridão é sentido a quilômetros de distância e quanto mais se aproximava, mais o cheiro era insuportável até para respirar. As próprias moradias estavam em condições de higiene deploráveis, o chorume passava por dentro das casas com riscos de transmissões de muitas doenças geradas pelos materiais contaminados. Durante o trajeto acompanhado de meu irmão que conhecia bem a região, devido seus trabalhos de evangelizações, foi possível ter contato com a situação de calamidade e ficamos abalados com as cenas de misérias: sem nenhuma estrutura de saneamento básico, os esgotos eram feitos em valetas, que também eram utilizados para criadouros de porcos. Aliás, na falta de comida esses animais serviam de refeições a muitas famílias. Quando chegamos ao alto do lixão havia urubus, cachorros, cavalos e pessoas disputando espaço naquele amontoado de restos de comida. É impossível não chocar-se com o modo de vida desumana dessa gente.

Não tem como saber a quantidade de sujeira acumulado em Itaoca ao longo de mais de quatro décadas de funcionamento. Arriscam dizer que pelo menos, 10 milhões de toneladas acumuladas em montanhas de barro, que aterrou o lixo depositado sem nenhum tipo de tratamento ou preparo do solo. A chegada dos caminhões de lixo ao aterro era festejada por toda a comunidade. Para quem, já conhecia o lugar, já sabiam que em determinados horários, quais os tipos de detritos seriam despejados e saiam gritando "corre, gente, esse é dos bons, tem iogurte e queijo". Aos poucos, os mais jovens conseguiam subir a montanha de lixo e argila. Depois, chegavam os mais velhos para garantir o que sobravam. A busca por alimentos duravam quase uma hora. Como se já não bastasse ter que remexer todo o lixo sob um forte sol de 40 graus e o cheiro de azedo no ar, há ainda o grande problema dos moradores contaminados por doenças dermatológicas, no corpo traziam as marcas desde micoses até câncer de pele, no entorno dos olhos tinham buracos... e o mais grave: alto nível de Aids, hanseníase e tuberculose. E mesmo assim, enxergávamos alegria em quase todos que já viviam uma vida ali (ou parte dela). Vale ressaltar que minha presença foi percebida, porque tirava fotos do local. E como era proibido, logo de imediato veio um representante me repreender de forma bem hostil e objetivo. E sendo o ambiente deles tive que respeitar calado, para menos continuar sendo testemunha de tudo que via. Confesso que foi uma experiência que marcou muito pra mim, inclusive fiquei um bom tempo com a impressão de sentir aquele cheiro impregnado nas roupas e corpo. Agora o mais complicado era comer alguma coisa, sem ter que lembrar daquelas cenas fortes das pessoas procurando alimentos para almoçar ou jantar.

Aterro sanitário de Itaoca

No ano seguinte em 2010, o então presidente Lula, preocupado com o meio ambiente, sancionou uma Lei Nacional de Resíduos Sólidos, que obrigava o tratamento de lixo para ser feito por todas as Prefeituras do país. De acordo com o projeto, toda a área que receber o lixo, terá um revestimento com uma manta constituída por material impermeável impedindo assim que qualquer tipo de dejeto entre em contato com o solo e afastando qualquer risco de contaminação. Sendo assim, o lixão de Itaoca deveria ser desativado imediatamente. Porém havia um grande problema... como fazer o despejo de famílias que tinham uma relação de sobrevivência em Itaoca? Em fevereiro de 2012, começou a negociação da prefeitura para cumprir a lei do fechamento do lixão, enquanto decidia o que fazer com 786 catadores com cadastro feito pelos próprios trabalhadores. No entanto, apenas 248 foram "beneficiados" e receberam uma ajuda de custo de R$ 200 durante quatro meses. Mas, foram poucas as famílias que receberam este valor. Segundo relato de uma ex-catadora, era possível conseguir cerca de R$ 800 por mês por meio da coleta de material reciclável. Um grupo de catadores se formou e luta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para discutir a situação e reivindicar atenção e auxílio. Eles reclamam da falta de indenização após o fechamento. Infelizmente, o que chama a atenção é que mesmo passado o período de "desativação" do lixão em São Gonçalo, diversos caminhões continuam despejando clandestinamente toneladas de lixo naquela região. Cerca de cinco mil metros quadrados da área já foram afetados pelo despejo irregular, como entulho de obras e pneus.. Além da falha de fiscalização do Instituto Estadual do Ambiente, que não conseguiu impedir a entrada dos caminhões.

Vejam mais fotos…











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